Diário de Rauros

A escuridão começa a envolver o deserto nas últimas horas do dia enquanto o grupo se prepara para acampar. Todos estão inquietos porque sabem que podem ser atacados novamente pelo Belgoi e seus giths. A alguns passos, Rauros, como sempre se reserva para contemplar as estrelas que começam a espocar no céu quase noturno, caminha devagar triturando a areia sob seus pés, quase os arrastando inconscientemente para produzir o som que tanto o acalma sem saber exatamente o porquê, parecido com uma caneta tinteiro que arranha o papel, seu rosto moreno revela misericordiamente um desejo de paz, fecha os olhos depois de um tempo e passa a se mover mais devagar, como se seu corpo começasse deixar de funcionar gradativamente até o momento de seu sono, semi adormecido para um expectador, mas Rauros trabalha com sua mente e pensa:

“INFERNO!

Criatura miserável que se alimenta de sonhos que muitas vezes apenas beliscam a realidade! POR QUE ESSE COVARDE ME SOLTOU? O QUE VIU ELE EM MINHA MENTE? ASSUSTOU-SE COM MINHA DETERMINAÇÃO EM REALIZAR MEU OBJETIVO? COM O HORROR NO MEU PASSADO? COM MINHA VINGANÇA? OU ESSE DESGRAÇADO VIU ALGO QUE ESTÁ NA MINHA FRENTE E NÃO ENXERGO!? Hah! O verme não teve ESTÔMAGO pra digerir tal mente!

E sei o que ele vai fazer, vai tentar limar a força de vontade de todos nós, vai nos perseguir porque ele imagina que iremos desesperar-nos como as vítimas que deve estar acostumado a perseguir e matar. Mas não a nós! NÃO A MIM! Essas pessoas são fortes, talvez sobrevivam e com a sobrevivência os laços se formarão. É a oportunidade que tenho de levar em frente meus planos e não poderia pedir por situação melhor diante das circunstâncias.

Tenho que acalmar-me e refletir, expandir-me e enxergar a situação como um todo. Shardã, o halfling espiritualista e eu já estávamos em fuga, talvez o belgoi tenha uma surpresa em nos perseguir, ele corre o risco de enfrentar nossos algozes mais antigos. Teria sido este o motivo do belgoi ter desistido de roubar minhas memórias e me matar? Medo de substituir-me como caça? Não é uma suposição muito provável… certa porém é a tolice em chafurdar-se em teorias sobre os motivos de um belgoi covarde!

Os aliados sim, eles valem a pena investir o pensamento. Shardã é um aliado valioso, não conheço muito sobre… espíritos, mas talvez ele como shaman, possa se comunicar com espíritos de locais antigos, perigoso sem dúvida, mas com grandes recompensas, informação de coisas que aconteceram e ninguém mais sabe pode me ajudar e muito! Tenho certeza que ele próprio sentir-se-ia regozijado em ter o poder de obter ajuda e conhecimento destes espíritos grandiosos, e o ajudarei nesse sentido com toda minha determinação se a oportunidade surgir.

E aqueles dois, o thri-kreen e o elfo, uma piada para mentes comuns que procuram anormalidades para distraírem-se do calor e morte. Incomum, raro e por isso respeitável, Tirper, embora tenha os desagradáveis trejeitos de um elfo, tem alguma dignidade em não atacar o thri-kreen, tenho certeza que não é desespero pela sobrevivência, se esse fosse o caso eles já teriam se matado. Não, é algo mais forte que o instinto, determinação! O que é singular, poderoso e admirável para o bom observador. O thri-kreen é totalmente selvagem porém surpreendentemente controlado. Thri-kreens vivem em grupos e acredito que este filhote, “Khrk” deve ter nos adotado como parte de sua ninhada, um pensamento que todos no grupo devem valorizar com prioridade. E talvez o belgoi não tivesse desistido de mim tão cedo se ele não estivesse ao meu lado, um indicativo do comportamento grupal dos kreens, retribuirei o gesto no futuro fortalecendo ainda mais esse sentimento essencial a nós. Sem dúvida o mais curioso do grupo, me protegeu e aliou-se a um elfo… merecerá uma parcela maior de meus pensamentos no futuro.

O comerciante Lin, um usuário da Arte como eu, um “manipulador natural” dos elementos, hehehe… ele engana por um tempo até. Um comerciante aliado tem seu valor e não é baixo, ele pode ser o caminho onde posso estruturar-me. Sendo comerciante, tem avidez, avidez sem força é atalho para a morte e logo ele vai descobrir que a fortaleza está naqueles ao seu lado. Esse poder vai estimulá-lo a galgar os degraus de sua carreira e assim quero que aconteça. Seu caminho deve ser o nosso por agora, saber pra onde vamos é essencial. A sensação de perseguir o horizonte sem uma finalidade mata o indivíduo a cada passo.

Nosso grupo coeso e singular tem chance. Sim, devemos contra-atacar o belgoi se ele nos perseguir. Sobreviver um ataque destes mostrará nossa energia e nos unirá. Depois teremos que chegar o mais rápido possível no Fort Kalvis.”

Após esta noite, os dias que se seguiram foram dolorosos e indiscutivelmente desesperados pela perseguição do belgoi que Rauros achava que aconteceria, ele precisava vislumbrar uma oportunidade no deserto para contra-atacar os perseguidores, mas o deserto não preparou nenhuma surpresa e foi implacável como sempre. A doença do sol passou a afetar o Lin, Shardã e o próprio Rauros e ele apenas imagina se esta situação é o motivo dos pesadelos que o impedem de dormir. Ele sabe que não é a causa, mas o subconsciente enfraquece e o passado o assalta com mais força!

As dunas se erguiam à distância e a oportunidade de contra-atacar o belgoi surgiu atrás de uma duna particularmente alta, o grupo ficou escondido logo atrás do cume da duna e preparou-se pra atacar de surpresa o grupo do belgoi, o rápido Tirper ficou escondido num local diferente e com visão lateral do local onde a batalha começaria. Ao avistar o belgoi e os giths no pé da duna, Tirper usou seu poder mental e enviou uma mensagem telepática avisando que era hora de atacar! O belgoi surpreendido com a ação fugiu, mas conseguiram acabar com parte dos giths e o restante que fugiu estava ferido e enfraquecido. A vitória desesperada surtiu o efeito que Rauros planejava, um sentimento silencioso de união apoderou os indivíduos que viajavam juntos em condições lamentáveis pelo deserto. Só que a vitória não os curou da febre do deserto, Lin manteve-se estável, mas Rauros estava piorando e Shardã mais ainda, a ponto do Tirper ter de carregá-lo. Quando todos estavam calculando se sobreviveria o dia de amanhã, surge no horizonte o objetivo da viagem e nada mais existia no deserto para eles a não ser o portão do forte. Lá eles tiveram dificuldade para passar pelo porteiro, mas com alguma persuasão do Rauros e a atitude louvável do Lin em assumir a responsabilidade pelo grupo, eles conseguiram entrar todos, mais tarde Rauros teve que reconhecer a perspicácia do porteiro que queria apenas evitar confusão com um grupo de elfos que já estava dentro do forte. Sem dúvidas foi o que aconteceu, o próprio Tirper se aproximou de dois dos elfos e os interpelou pra descobrir o que queriam enquanto Rauros e Khrk observavam à distância, Shardã estava num outro local mais reservado para se recuperar da febre do deserto e Lin foi negociar com seu contato na companhia do responsável pelo forte, o Sr. Kalvis.

Tirper descobriu que os elfos estavam vendendo armas e outros itens sem o aval do forte, e enviou uma mensagem telepaticamente ao se fiel amigo Khrk avisando que uma luta era inevitável. Khrk se pôs lado a lado com seu amigo elfo e Rauros acompanhou a cena um pouco afastado, não poderia acabar com a confusão que já se formara e a única maneira de não ser expulso do forte e complicar o Lin seria provar que os elfos estavam vendendo produtos ilegais dentro do forte. No fim das contas, os elfos bateram a porta de sua cabana que estavam hospedados na cara do Tirper, como este também não queria mais confusão, acabou saindo de fininho antes que guardas do forte chegassem pra acabar com a arruaça à força. Enquanto isso, Lin negociava com seu contato, um anão e sua humana guarda-costas e depois de  algumas horas, fecharam negócio no sentido de estabelecer uma rota comercial de tecidos e sal entre o forte Kalvis e o forte Fyra, que fica no Triângulo do Marfim bem no meio de um deserto de sal, muito mais mortal que o deserto que o grupo acabara de atravessar. Não era o que Rauros esperava, mas também não podia fazer nada diante desta situação.  O anão e a mercenária guarda-costas, Orsik e Narena consecutivamente, se uniram a Lin para fazer a viagem até o forte Fyra pela futura rota comercial. Lin por sua vez, contratou o grupo como mercenários para proteção.

Um segundo comerciante aderira ao grupo e Rauros ficou satisfeito com tal aliado, além de participar da concepção de uma rota comercial que promete grandes lucros de ambas as casas mercantes, fortes e os desbravadores. Infelizmente o perigo de morte é maior que os lucros, mas mais uma vez Rauros não pode mudar o destino e assim, pretende se esforçar o máximo pra que a viagem seja bem-sucedida. O Sr. Kalvis, dono do forte de mesmo nome providenciou nada mais que um Mekilot com vagão para a viagem, no vagão foram montados quartos para acomodar a mercadoria, viajantes e o domador e o controlador do animal gigante. Rauros se mostrou bastante preocupado com os elfos que causaram confusão mais cedo e após toda a negociação e a confusão, Rauros voltou até o porteiro para conversar com ele mais calmamente. Foi quando descobriu a precaução do porteiro quanto à entrada do grupo no forte, ele previra os problemas com os elfos e também disse que eles pertencem a uma tribo que não devia estar longe do forte.

O grupo iniciou a viagem dois dias depois da chegada, preparado para um ataque da tribo élfica que até o momento não aconteceu e tomara que assim continue. Durante a viagem o grupo avistou um brilho ofuscante e resolveram investigar. A origem do brilho era de uma árvore enorme que foi vitrificada à muito tempo, indícios de magia defiler davam um ar desagradável ao local, esqueletos de humanóide estavam próximos da árvore ali havia uma caverna. Rauros, ainda debilitado pela febre do deserto não queria se arriscar a explorar o local, embora talvez fosse encontrado algum vestígio arcano que pudesse lhe auxiliar. Além disso, o grupo era totalmente desfavorável à idéia de explorar a caverna perdendo tempo na viagem e correndo perigo desnecessário. Assim o grupo deu as costas à entrada da caverna e rumaram de volta até o mekilot que estava a certa distância, mas foram surpreendidos por duas formigas gigantescas que habitavam a caverna, saíram de debaixo da terra agarrando Rauros e Narena. O combate que seguiu foi extenuante, o grupo unido com seus dois novos aliados teve que gastar quase todas as suas forças para sobrepujar as criaturas. Depois de finalmente, as criaturas morrerem, Tirper resolveu analisar os esqueletos ao pé da árvore, e desconfia-se que os esqueletos são de criaturas da Era Verde de Athas!

Apenas a quase inexistente chance de descobrir algo dessa época fez o sangue de Rauros pulsar mais rápido, a GRANDIOSA ERA que EMPORCALHARAM com a maldita magia defiler! Uma ínfima chance de adquirir conhecimento ou poder e aumentar suas chances contra os DESGRAÇADOS culpados pelo mundo ser o inferno que é! Por alguns segundos, Rauros se perdeu em memórias de indignação e injustiça, quando percebeu onde estava, viu que o grupo agora quer também explorar a caverna, o grupo sabe também que aquelas formigas normalmente vivem em casal com seus filhotes e que estes mal representam perigo, mas dependendo do tamanho do complexo de túneis, pode haver mais criaturas lá dentro. De qualquer forma, TUDO vale o risco agora, e Rauros está disposto a seguir até o fim junto com seu grupo e descobrir se algo ali pode ser uma luz para seu ódio cego.

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